sábado, 23 de maio de 2009
"E ele diz que se chama Jonas..."
E ele diz que mora dentro da baleia por vontade própria"
Zé Rodrix foi pra dentro da baleia por vontade própria
"Encantou-se", à Guimarães Rosa
Foi pra sua casa no campo guardar seus amigos, discos e livros
E nada mais
Quando morre um papa,
Honras espirituais
Quando morre um estadista,
Honras militares
Quando morre um escritor
Honras seculares
Que honras são devidas quando morre um roqueiro?
Dois acordes? Um "róquiem"?
O que dizer de um poeta que embalou gerações?
Que valeu?
Que relembrar de uma mensagem de amor, de positividade, de alegria
Num universo que - querem - rotula-se "do mal", esse tal de rock'n'roll?
Pois Zé Rodrix, Luiz Carlos Sá e Gutemberg Guarabyra são a trilogia de bem
Que o jornal diz ter criado o rock rural...
Mania de dar nome a bois...
Por mais rurais que os considerem, furaram discos aos milhões nas vitrolas urbanas
O que dizer da passagem do carioca Rodrix pelo paulistano Joelho de Porco?
Um dos melhores produtos da ponte-aérea, precursor de outro "praieiro", o Ultraje rogeriano
Ontem perdemos uma fonte de inspiração, mas o céu vai ficar mais animado
"No meio das lembranças do passado eu não estou sozinho..."
A letra toda de "Mestre Jonas"
Dentro da baleia mora mestre Jonas
Desde que completou a maioridade
A baleia é sua casa, sua cidade
Dentro dela guarda suas gravatas, seus ternos de linho
E ele diz que se chama Jonas
E ele diz que é um santo homem
E ele diz que mora dentro da baleia por vontade própria
E ele diz que está comprometido
E ele diz que assinou papel
Que vai mantê-lo preso na baleia até o fim da vida
Até o fim da vida
Dentro da baleia a vida é tão mais fácil
Nada incomoda o silêncio e a paz de Jonas
Quando o tempo é mau, a tempestade fica de fora
A baleia é mais segura que um grande navio
E ele diz que se chama Jonas
E ele diz que é um santo homem
E ele diz que mora dentro da baleia por vontade própria
E ele diz que está comprometido
E ele diz que assinou papel
Que vai mantê-lo preso na baleia até o fim da vida
Até o fim da vida
Até subir pro céu
sexta-feira, 8 de maio de 2009
E o público que se dane, de novo...
Pouco mais de cem anos depois, um parlamentar brasileiro - o excelentíssimo sr. Sérgio Moraes, deputado federal pelo PTB do Rio Grande do Sul - repete, em conteúdo muito similar, a filosofal máxima do magnata estadunidense William Henry Vanderbilt, que, em 1882, quando cobrado na imprensa sobre a qualidade dos serviços prestados por suas ferrovias, mandou esta pérola: "o público que se dane", dando, com este gesto, início à história moderna das Relações Públicas: em 1906, um jornalista seu conterrâneo, Ivy Lee, passava a oferecer aos jornais um serviço informativo inédito, divulgando informações empresariais julgadas por elas (e por ele, com sua experiência de redação), de algum interesse do público.
Lee explicava sua atividade dizendo "não fazemos jornalismo", inaugurando a era da preocupação das organizações com imagem institucional, algo que poderia ser trabalhado (não construído, note bem) com divulgação (honesta, de fatos) prestada por uma atividade nascente - a assessoria de imprensa - batizada public relations.
Relações Públicas
A evolução levou os grandes grupos empresariais a criarem internamente diretorias de public affairs para tocar todas as frentes em que uma organização precisa agir para conviver bem com a comunidade em que se instala - desde a vizinhança física até as autoridades municipais, passando pela clientela e, logicamente, pela imprensa.
Artur da Távola, parlamentar fluminense falecido há um ano, costumava dizer, não sem uma (grande) pitada de ironia, que "não existe opinião pública, mas opinião de quem publica". Foi exatamente nessa sutileza que residiu outra infeliz frase do deputado gaúcho; "vocês da imprensa batem, mas continuamos a ser eleitos". Separou ele, para defender seus interesses e atitudes, a opinião pública da ação da imprensa - que em nome dela se exerce. O jornalista brande no ar - com razão - não as suas convicções apenas, mas a dos seus leitores; afinal, o escriba escreve aquilo que buscamos ler. Se a "escritura" não vai muito ao nosso encontro, trocamos de assinatura e lá vamos nós atrás de outras fontes. Outros veículos, outros jornalistas.
terça-feira, 28 de abril de 2009
Tucano amarelo cutuca o ministério verde do Juca
Diretamente do palácio dos Bandeirantes, ninho do governador-candidato Serra, João Sayad, talvez o mais culto dos secretários de Cultura, comete erros e acertos. A eles:
Os erros
1) Erra ao atribuir 25 anos à renúncia fiscal dirigida à cultura (14 destes de Lei Rouanet). A idade correta da renúncia é menos de 23 anos, pois a Lei Sarney é de 2 de julho de 1986. E ainda tivemos o período "em branco", de Collor, entre março de 1990 e dezembro de 1991.
2) Afirma que o MinC (errado, é a CNIC - Comissão Nacional de Incentivo à Cultura) avalia preços dos projetos e se os mesmos precisam de apoio. A decisão não é se precisam, pois todos os que pleiteiam julgam precisar. Até o Cirque du Soleil "precisa" de recursos. A decisão, lá, é somente se os projetos atendem aos parâmetros e exigências da lei. Não há julgamento de mérito. Nem se algo é ou não cultural - uma das boas coisas de uma política verdadeiramente democrática.
3) Afirma que "se forem projetos comerciais ou com ingressos caros, a renúncia fiscal não pode ser utilizada". Me engana que eu gosto: permanecem, como sempre foram, os apoios ao teatrão e à flutuante árvore de Natal carioca, por exemplo.
4) Defende que o ministro lute por verbas mas que não mexa na renúncia das empresas, sob a argumentação de que uma ação retira recurso da outra. Meia-verdade: como o próprio Sayad aponta em seu artigo, não conseguimos passar de R$ 1 bilhão na Cultura. O que é quantia risível diante do PIB brasileiro de mais de R$ 2 trilhões. Precisa-se mesmo é de mais dotação orçamentária - e não só a nível federal, mas também de estados e municípios.
Os acertos
1) Chama a atenção - sobretudo de um público que costuma prestar pouca ou nenhuma atenção ao noticiário econômico-financeiro - para o descalabro dos juros da dívida interna (obra-mór do grão-tucano FHC (padrinho de Meirelles), que decuplicou-a a partir do golpe da maxidesvalorização do real, em janeiro de 1999).
2) Explica didaticamente a diferença entre orçamento, incentivo (esclarecendo que é sempre política pontual, de objetivo e duração determinadas) e renúncia fiscal.
3) Dá conta da lerdeza (e da falta de sorte) do governo federal quando sinaliza o péssimo momento em que a reforma vem à baila. Apenas meia-verdade, porque o tempo das mudanças no Brasil é mesmo medido em décadas. Mas, de fato, a mudança da Lei Rouanet foi bandeira da dupla Lula-Gil em 2002 - e até agora nada aconteceu de efetivo. Como já alertei neste blog, por mais uns poucos meses, nem uma das mudanças pretendidas será implementada e teremos mais do mesmo - ou a política tucana para a área, aquela que prega que a "cultura é um bom negócio". Quem sabe o Opportunity não ocupa a vaga do Banco Santos e se transforma no próximo grande mecenas da corte?
4) Afirma que é obrigação do MinC lutar por mais verbas orçamentárias para a Cultura. Certíssimo! Se somos um país de 2 trilhões, nosso gasto total com cultura já devia estar na casa dos 20 bilhões anuais (mais ou menos a verba do Ministério das Comunicações, lugar-tenente do PMDB) e não do bilhãozinho que nenhum partido político quer administrar.
Como diria Mino Carta, conversando com seus já sábios botões, "até o mundo mineral" sabe quais reformas deveriam ser feitas à Lei Rouanet (e a outras leis marotas de incentivo à cultura, em estados e municípios, Brasil afora). Vamos a elas (trechos extraídos de artigo publicado pelo autor em 2005, a respeito da dita reforma):
É necessário ampliar o acesso do cidadão às políticas públicas e aos equipamentos culturais, permitindo sua participação não só na fruição como também na produção da cultura.
O uso dos incentivos fiscais pela pessoa física ainda é tabu; menos de 1% da renúncia do imposto de renda que é destinada à cultura vem da pessoa física. É preciso fomentar essa participação.
Os incentivos deveriam ser aplicados na ponta do "consumo" da produção artístico-cultural.
Como?
1) No cartão único dos programas sociais (cujos portadores são isentos do imposto de renda), deveriam ser incluídos "ingressos virtuais" para sessões de cinema (brasileiro), teatro, dança, circo, ópera, música de concerto ou instrumental;
2) Espetáculos incentivados deveriam oferecer, sempre, récitas gratuitas;
3) A compra de livros, CDs e DVS de produção (e conteúdo) nacional, devidamente discriminada em notas ou cupons fiscais, deveria poder ser lançada no imposto de renda, até o limite de 6% do imposto devido (renúncia em vigor) na rubrica "incentivo à cultura".
E mais algumas considerações sobre renúncia fiscal a partir do locus/fato gerador de cada iniciativa
A) Projetos incentivados com recursos do imposto de renda (federal) deveriam circular obrigatoriamente pelas cinco regiões do país; projetos incentivados com recursos do ICMS (estadual) deveriam circular pelo respectivo estado concedente, por, pelo menos, cinco cidades diferentes, previamente constantes da proposta; projetos incentivados com recursos do ISS ou IPTU (municipais) deveriam acontecer obrigatoriamente na cidade concedente, podendo, complementarmente, circular por outros municípios previamente constantes da proposta;
B) Projetos eminentemente promocionais (marketing cultural de meio) NÃO deveriam ser alvo de renúncia fiscal;
C) Projetos de marketing cultural misto (parcerias, co-patrocínio entre entes públicos e privados, por exemplo), deveriam ter 50% de seu custo incentivado;
D) Projetos de empreendedores, com risco, ou seja, de marketing cultural de agente, excluído show business (produções lucrativas), e projetos de entidades de natureza cultural (marketing cultural de fim), deveriam ter 100% de incentivo fiscal.
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Don't worry... é só jornalismo...
Parece até que é uma campanha corporativa das Organizações Globo, achincalhar o marketing. (Vide matéria de 03/09/08 neste blog).
Dizer só isso assemelha-se à imagem de um pires de café: muito pequeno e muito raso. Há algo mais por detrás. Tem que haver. Palpito que uma das razões é a indigente formação dos jornalistas no que diz respeito a temas mercadológicos.
Embora vivam - vivamos todos - mergulhados em mercados, múltiplos, avassaladores, os coleguinhas correm a negá-lo, a bater nele. Quase uma ideologia. E xiita.
É mercado de trabalho, mercado de arte, mercado livre. É consumo de celular, de cerveja, de banda larga. Mas se há um culpado, se há um demônio, don't worry... é só marketing...
Senão vejamos
Hoje, o jornal dos Marinho estampa em sua página 2: "show de marketing", aludindo as ações midiáticas do ministro Nelson Jobim (de arma em punho) e do governador Sérgio Cabral (vestido à judoca). Ora, Deus, são só poses! Desde que foi inventada a máquina de fotografar, os políticos posam à larga. No cockpit de um jato, a bordo de um submarino, carregando um recém-nascido. Isto não chega a ser nem factóide. É só pose mesmo.
Falta a disciplina "Mercadologia" nos currículos de Jornalismo. E então temos não só a má vontade, mas, pior, a ignorância.
Na mesma edição do jornal, na crítica do novo álbum de Caetano Veloso, o preconceituoso título: "Além de toda a teoria e do marketing, disco se impõe por boa safra de composições". Mamma mia! Será que não se pode realizar um cursinho de marketing "in company" na redação ou então uma parceria básica com uma dessas casas do saber que dê direito a publicitário estrelado e professor da EcoEcoEco para ensinar aos cabras que marketing não é só a propaganda, a comunicação que se vê e ouve, mas tudo o mais que "consumimos"; produto composto-gravado-editado-impresso-embalado-estocado-distribuído? E que se não existisse marketing sequer estaria o escriba a tecer, na mídia, seus comentários contra ou a favor de qualquer coisa, pois nem emprego teria?
Por fim, a matéria publicada no último final de semana. O título já diz tudo: "FH diz que PAC é mais marketing que realidade". Tsc, tsc, tsc. Que desserviço à boa informação! O ex-presidente fez, sim, uma alusão às ações de propaganda do PAC. Isto sim, propaganda. E aí, cabe ao ex-presidente, ou a qualquer um de nós meros mortais, criticar uma propaganda vazia, de algo que não existe. Uma ponte que vai a lugar nenhum... uma estação de metrô com cinco placas diferentes de inauguração (experimente passear pela estação Cantagalo, no Rio de Janeiro). Mas, como dói aos veículos de comunicação baterem naquela atividade que lhes rende o oxigênio... Fica mais fácil bater no tal do marketing, afinal uma palavrinha contrabandeada, que nem tradução conseguiu na nossa língua.
sábado, 28 de março de 2009
Comentário de um remanescente da era dos átomos
Nicholas Negroponte "marcou um gol" quando em seu livro A vida digital (1995) dividiu a economia em duas eras: a dos átomos e a dos bits. A primeira, bricks and mortar; a segunda, e-business.
É inegável o avanço que as tecnologias (de hardware, de software, de peopleware e até de um... mindware) proporcionaram em termos de produção, eficiência e riqueza. É inigualável, também, a contribuição que a chamada T. I. trouxe ao conhecimento e àquela área que administra - ou quer administrar - o conhecimento: a educação.
Mas - sempre tem um mas - em termos de educação, há algo mais a considerar: todos nós, dos nonagenários nascidos no início do século XX aos “Y generation”, fomos educados em um sistema formal - pré-internet - baseado em escolas, disciplinas, metodologias e crivos quantitativos e qualitativos de saber – sendo, estes últimos, cada vez mais rigorosos em termos de fontes, referências, testagem e comprovação empírica.
O sistema acadêmico universal, ainda em vigor (e não diviso nem uma sombra pairando sobre ele) sempre foi uma construção coletiva de conhecimento. Cada tese de doutorado, pelo seu caráter referencial ao que fora feito antes e de adição de um conhecimento inédito, torna-se um "tijolinho" do edifício de sua área, esta bastante bem delimitada no contexto das ciências sociais, humanas, biológicas ou tecnológicas.
Há transversalidades. Saberes que desafiam o status quo compartimentado dos departamentos universitários, mas que mesmo assim têm o endereço de equipes ad hoc multidisciplinares controlado pela academia e centros de pesquisa. Mesmo as empresas que inovam com fins lucrativos alimentam-se do conhecimento que, produzido academicamente, recorre a agências de fomento muitas vezes financiadas por recursos públicos.
Bottom line
Há que se render, ainda, a parâmetros de "velha" economia dos tijolos e argamassa. Já escrevi que a universidade brasileira se reengendra ou morre, mas, por ora, seu modus operandi sobrevive, mesmo que aos trancos e barrancos.
As revistas científicas são online mas os experimentos médicos, técnicos e sociais têm que ser bastante palpáveis - passam por estudos de campo, envolvem pesquisa de opinião pública e de mercado, experimentações em laboratório e em centros de pesquisa médico-farmacêutica, passam por testes de materiais e implicam na construção de modelos aerodinâmicos aprovados em túneis de vento... e por aí vai.
O mesmo traço “físico” ocorre com o livro. Em plena passagem da era "atômica" à digital, o velho calhamaço encapado, de folhas cortadas e coladas ou costuradas, sempre foi mobile e mais, não requer bateria (poluidora) de lítio ou cádmio e nem corrente elétrica ou iluminação. Vai onde quisermos. Na noite, uma vela (acesa!) basta. Pode até ser um pouco amassado para caber no bolso do paletó. E para produzi-lo ainda se precisa de alguém que o edite. Isto dá a credibilidade inicial. A final virá da essência que o próprio conteúdo carregue - fruto de suas fontes e referências.
Blá Blá Blá “na nuvem”
A wikipedia carece muito dessa credibilidade essencial. Alguém pesquisou e encontrou 1.070.000 referências no Google para a palavra “brogue”. Muuuiiito lixo. Andrew Keen, criador de várias empresas baseadas na internet e autor do livro O culto do amador (2007) adverte: “é a celebração do amadorismo – qualquer um, por mais mal-informado que seja, pode publicar um blog, postar um vídeo no YouTube ou alterar um verbete na wikipedia. Essa anonimato da web - uma mistura de ignorância com egoísmo, mau gosto e ditadura de massas - põe em dúvida a confiabilidade da informação. E a distinção entre especialista e amador torna-se cada vez mais ambígua...”.
Eu mesmo posso relatar uma experiência nefasta. Tendo realizado uma pesquisa ao longo de anos, no interior do sistema universitário (especificamente no âmbito da USP), tive o lampejo e a generosidade de postar um texto referente aos meus achados incluindo na wikipedia um verbete sobre o "meu" tema, marketing cultural. Pois não é que um anônimo retirou-o? Nova tentativa, e novo “veto”. E o cidadão ainda direcionou os ponteiros da pesquisa de quem quer que fosse buscar na malfadada enciclopédia gratuita e virtual o termo “marketing cultural” para um canhestro conceito que o mesmo explora em seus empreendimentos, o de (sic) 'arquitetura cultural'. Um acinte – sobrepor um interesse particular a um achado legitimamente reconhecido pelo sistema acadêmico vigente. Felizmente encontrei alguém com credibilidade (no caso, a editora Ciência Moderna) para publicar o resultado de meu suado trabalho.
E não é que meus alunos de graduação na disciplina "Produção de Eventos" querem realizá-los sentados diante do computador?
Por isso, caros amigos, ainda temos que aprender e fazer muito pelos novos suportes tecnológicos do conhecimento. E enquanto não fazemos isto vigir, utilizar as regras do jogo atual da melhor maneira possível, realizando nossas pesquisas no campo (mais que na web) e publicando nossos livros por meio de alguma editora que não seja “a do autor”.
quarta-feira, 25 de março de 2009
Até que enfim... a Lei Ferreira
Sonhada por mim, querida por você, pedida por nós, clamada por vós e por todos, a reforma (sempre) anunciada e (ainda não) executada pelo governo federal já é maior de idade, uma vez que as críticas fizeram aniversário de 18 aninhos junto com a própria Lei Rouanet - e a esta altura o ex-ministro deve estar torcendo para sua "filhota" sair de casa, casar e mudar de sobrenome. Quem sabe o comprido Passos Gil Moreira ou, talvez, o mais econômico sobrenome de (Juca) Ferreira.
Deu n'O Globo
Entra ministro, sai ministro, desde 1991 se sabe que o patrocínio às artes e espetáculos no país virou oligopólio. Segundo o ministro Ferreira, 3% dos proponentes abocanharam e decidiram sozinhos o destino de 50% do (pífio) bilhão de reais da renúncia fiscal havida em 2008.
Eventual política de eventos culturais
É uma árvore de Natal aqui, um Cirque ensolarado ali, um Canecão lá, um Vibezone acolá e pronto; acabou-se o recurso do incentivo com aqueles que, convenhamos, não precisam de incentivo algum, pois que já contam com o nosso "incentivo" de servos-consumidores. E nem assim, com uma galera-mecenas de milhões de almas, a TIM deixou de chutar o balde do ex-Free Jazz Festival... ou seja, patrocínio continuado no Brasil é... vento...
Eterno sonhador, iludo-me que talvez algumas de nossas corporations, hoje tão citizens, tenham aprendido a lição do genuíno marketing cultural como um (belo e eficaz) meio de promoção institucional e relações públicas e permaneçam no mercado de patrocínio, viabilizando quem precisa de modo contínuo, não-eventual, e bem longe dos gerentes tupiniquins de marketing que, ao patrocinar um Picasso, estão, de fato, com o coração e a mente no volante de um Citroën.
Saiba mais sobre a terceira geração do marketing cultural.
sábado, 28 de fevereiro de 2009
"Suicídio alemão..."
Confesso que andava à procura de um tema para escrever em fevereiro, e não deixar o mês sem uma matéria nova no blog. Pura demanda interna. Esta, aliás, é a mais antiga das motivações de alguém que escreve - a auto-imposição. Mas fica mais fácil quando se é visitado pela musa dos escribas: a inefável inspiração.
E ela veio. Na forma de uma matéria interessante publicada na edição de hoje, 28 de fevereiro, do jornal O Globo, em seu caderno Prosa & Verso. Trata de um fenômeno bem conhecido deste que vos escreve bem como de outros colegas da faina acadêmica: a forma tosca como as editoras recusam novos autores e novas obras, independente do fato de serem potenciais best sellers ou, pelo menos, autores de algo que valha a pena sair da gaveta. Conta o autor, o escritor canadense Camilien Roy (ver íntegra em www.marketing-e-cultura.com.br/clipping / matéria de 28/02/2009), como seriam algumas pérolas emitidas pelas editoras:
"Lemos o seu livro, mas não gostamos, então pode acrescentar esta carta à sua lista."
"Assim que o senhor terminar um novo trabalho, envie-nos, pois nossa equipe de leitura está trepidando de impaciência para ler outra de suas 'obras-primas'."
"Recusei seu original para seu próprio bem. Sim! Sim! Para seu próprio bem. Seu estilo denuncia sua juventude".
"Nossa comissão de leitura é aberta, é tolerante, mas... não há o que fazer: seu manuscrito não agradou, não gostaram dele... "
"Fiquei enojado com essa obra fedorenta e pavorosa que o senhor ousou qualificar de romance."
Longo caminho entre a pena e o prelo, entre a cena e o aplauso, entre a "demo" e o disco.
Isto remete-me a uma questão recorrente em sala de aula nos últimos quinze anos em que estivemos envolvidos com as questões que transpassam os campos da arte, da comunicação, da cultura e do marketing * - se temos e discutimos obras artísticas relevantes que experimentamos, isso deve-se à argúcia, sensibilidade, senso de oportunidade - ou até, sei lá! - uma questão de cara-ou-coroa que se deu, necessariamente, fora da obra de arte em si.
Explico melhor: o artista, seja ele um poeta, autor literário, ator ou roteirista, pintor ou dramaturgo, diretor de cena ou cineasta é alguém que cria por absoluta necessidade intrínseca. O músico, o escultor, o bailarino - o artista criador, em geral - faz sua arte fundamentalmente para si. Para sua satisfação pessoal. Por uma necessidade de comunicação em que ocupa invariavelmente o posto de emissor. E isso independente de haverem ou não "receptores". Seu "público" primordial é sua própria psiqué atendida no desejo de expressar-se. De dentro para fora. A partir de sua sensibilidade e leitura de mundo. Como disse Ezra Pound, "o artista é a antena da raça".
Muitos confundem o fazer artístico com necessidade de expansão de uma personalidade narcisista com endereço certo - o outro. Isto é parcialmente falso. É natural que analisemos - como público - a arte e suas manifestações a partir da performance das mesmas. Do aplauso - ou da vaia - da casa cheia ou do fracasso de público, da crítica favorável e transbordante ou do desprezo da mídia especializada. A alteridade é uma das questões que mais interessam àqueles que se dedicam a estudar o fenômeno da fruição das artes. Afinal, as obras de arte nos "falam" aos olhos, nos "tocam" o coração, "encantam" nossa mente.
Para Benjamin, com afeto.
Mas a arte autônoma - como definida por Walter Benjamin - , naquele very first moment do atelier, do estúdio caseiro, da escrivaninha de um Carlos Drummond de Andrade, provida de uma aura única, é obra privada que pode - ou não (e é disto que queremos tratar com mais ênfase) - ganhar o mundo, o público, a consagração ou o apupo da reprovação.
É sobre esta obscura e pouco conhecida fase que se dá entre o ponto final do romance ou do poema e sua publicação que repousa o mistério que atrevo-me a tentar trazer às claras, e que tem sido objeto de inúmeros colóquios, seminários e oficinas, tanto no espaço acadêmico quanto fora dele.
Como bem descreve Umberto Eco em seu fundamental "Obra aberta", a obra de arte encerra seu ciclo de vida quando fruída. Pouco ou nada valem o poema que morreu na gaveta, a sinfonia jamais gravada, o quadro encerrado no atelier para sempre. É preciso que o corpo de balé "aconteça" diante da plateia, que a ópera ganhe a estreia, os livros pelo menos a edição de lançamento e o roteiro o tão difícil financiamento para produção e distribuição.
É como a experiência por mim vivida a partir da doação do acervo de Manoel Maria de Vasconcellos à UERJ. No meio de toda aquela papelada havia dois originais: uma tese de livre docência que, apesar de aprovada com conceito "A", a PUC-Rio não editou e o manuscrito - inédito - de uma verdadeira teoria do comportamento do consumidor. Graças aos céus pude ser um elo na cadeia que levou esses textos da morte anunciada ao conhecimento público - ainda que singelo - pelas mãos da Conceito Editorial, a qual aceitou investir no incerto e dispendioso mercado editorial brasileiro. O primeiro livro, "Marketing Básico", lançado em 2006, teve sua edição esgotada - o que augura uma segunda para este ano. O outro, manuscrito em fase de editoração e revisão técnica, pré-intitulado pelo autor "Por que se compra", deve ganhar a luz em 2010. Vida longa aos - raros - empreendedores brasileiros da arte e da cultura!
Não me canso de citar também a recusa recorrente à minha proposta de levar disciplinas de produção às escolas de formação de artistas. Instituições como USP, UNICAMP, UNESP, UFRJ e UERJ esmeram-se em formar artistas mas nenhum perfil que se interesse em saber como o trabalho de atores ou músicos pode ser desenvolvido, não só como carreiras individuais mas também como proposta estética e produtiva de uma escola, institucionalmente. Vivi a experiência de ver a Orquestra de Música Brasileira (da qual tive a honra de co-participar em produção de espetáculos e gravação de disco) sucumbir sem qualquer apoio profissional ou profissionalizante da universidade que a viu nascer.
Outra história ou o senhor é o "famoso" quem?
Em São Paulo, ano 2000, por cortesia de um amigo jornalista e assessor de imprensa de importantes organizações, utilizei seu escritório contatando três dezenas de editoras a oferecer o manuscrito de minha tese de doutoramento desenvolvida na USP e versando, justamente, sobre marketing cultural. As respostas das editoras não poderiam ser mais iguais que as de uma secretária eletrônica onipresente: - o senhor é o famoso quem? Para em seguida emendar cortantes: - o senhor envia o seu original e nós temos seis meses para dizer se vamos ou não publicar. Nada mais burro, em minha opinião. Eles podiam estar diante de um mega seller! Piada. Mas hoje estou com o livro editado já há sete anos em uma casa editorial que prepara a terceira edição do livro proveniente da tese: "Marketing Cultural: das práticas à teoria".
Quantos livros maravilhosos deixaremos de ler porque sequer serão avaliados por uma editora? Quantos roteiros verdadeiramente originais (adaptados ou não de livros) jamais assistiremos na sala escura ou mesmo em vídeo porque sequer foram objeto de análise de algum estúdio? Quantas músicas de genuína qualidade deixaremos de ouvir porque nunca serão gravadas? E quantas peças jamais ganharão a cena? Lemos muito, ouvimos bastante música, vamos com frequência ao cinema, mas é inegável pensar que o que podemos fruir, mesmo em uma longa vida, é pequeníssima parcela do que o espírito humano já criou e ainda pode criar. Dessa angústia do não lido, do não visto, do não fruído, com alguma ironia, costumo dizer ser, este sim, caso que poderia dar "num verdadeiro suicídio alemão".
* O autor concebeu e coordena, na UERJ, os cursos "Marketing do Livro" (reciclagem em 30 horas), "Gestão e Marketing na Cultura" (aperfeiçoamento em 180 horas) e "Marketing Cultural: Teoria e Prática" (atualização em 75 horas), este último criado em 1994.
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