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Confesso que andava à procura de um tema para escrever em fevereiro, e não deixar o mês sem uma matéria nova no blog. Pura demanda interna. Esta, aliás, é a mais antiga das motivações de alguém que escreve - a auto-imposição. Mas fica mais fácil quando se é visitado pela musa dos escribas: a inefável inspiração.
E ela veio. Na forma de uma matéria interessante publicada na edição de hoje, 28 de fevereiro, do jornal O Globo, em seu caderno Prosa & Verso. Trata de um fenômeno bem conhecido deste que vos escreve bem como de outros colegas da faina acadêmica: a forma tosca como as editoras recusam novos autores e novas obras, independente do fato de serem potenciais best sellers ou, pelo menos, autores de algo que valha a pena sair da gaveta. Conta o autor, o escritor canadense Camilien Roy (ver íntegra em www.marketing-e-cultura.com.br/clipping / matéria de 28/02/2009), como seriam algumas pérolas emitidas pelas editoras:
"Lemos o seu livro, mas não gostamos, então pode acrescentar esta carta à sua lista."
"Assim que o senhor terminar um novo trabalho, envie-nos, pois nossa equipe de leitura está trepidando de impaciência para ler outra de suas 'obras-primas'."
"Recusei seu original para seu próprio bem. Sim! Sim! Para seu próprio bem. Seu estilo denuncia sua juventude".
"Nossa comissão de leitura é aberta, é tolerante, mas... não há o que fazer: seu manuscrito não agradou, não gostaram dele... "
"Fiquei enojado com essa obra fedorenta e pavorosa que o senhor ousou qualificar de romance."
Longo caminho entre a pena e o prelo, entre a cena e o aplauso, entre a "demo" e o disco.
Isto remete-me a uma questão recorrente em sala de aula nos últimos quinze anos em que estivemos envolvidos com as questões que transpassam os campos da arte, da comunicação, da cultura e do marketing * - se temos e discutimos obras artísticas relevantes que experimentamos, isso deve-se à argúcia, sensibilidade, senso de oportunidade - ou até, sei lá! - uma questão de cara-ou-coroa que se deu, necessariamente, fora da obra de arte em si.
Explico melhor: o artista, seja ele um poeta, autor literário, ator ou roteirista, pintor ou dramaturgo, diretor de cena ou cineasta é alguém que cria por absoluta necessidade intrínseca. O músico, o escultor, o bailarino - o artista criador, em geral - faz sua arte fundamentalmente para si. Para sua satisfação pessoal. Por uma necessidade de comunicação em que ocupa invariavelmente o posto de emissor. E isso independente de haverem ou não "receptores". Seu "público" primordial é sua própria psiqué atendida no desejo de expressar-se. De dentro para fora. A partir de sua sensibilidade e leitura de mundo. Como disse Ezra Pound, "o artista é a antena da raça".
Muitos confundem o fazer artístico com necessidade de expansão de uma personalidade narcisista com endereço certo - o outro. Isto é parcialmente falso. É natural que analisemos - como público - a arte e suas manifestações a partir da performance das mesmas. Do aplauso - ou da vaia - da casa cheia ou do fracasso de público, da crítica favorável e transbordante ou do desprezo da mídia especializada. A alteridade é uma das questões que mais interessam àqueles que se dedicam a estudar o fenômeno da fruição das artes. Afinal, as obras de arte nos "falam" aos olhos, nos "tocam" o coração, "encantam" nossa mente.
Para Benjamin, com afeto.
Mas a arte autônoma - como definida por Walter Benjamin - , naquele very first moment do atelier, do estúdio caseiro, da escrivaninha de um Carlos Drummond de Andrade, provida de uma aura única, é obra privada que pode - ou não (e é disto que queremos tratar com mais ênfase) - ganhar o mundo, o público, a consagração ou o apupo da reprovação.
É sobre esta obscura e pouco conhecida fase que se dá entre o ponto final do romance ou do poema e sua publicação que repousa o mistério que atrevo-me a tentar trazer às claras, e que tem sido objeto de inúmeros colóquios, seminários e oficinas, tanto no espaço acadêmico quanto fora dele.
Como bem descreve Umberto Eco em seu fundamental "Obra aberta", a obra de arte encerra seu ciclo de vida quando fruída. Pouco ou nada valem o poema que morreu na gaveta, a sinfonia jamais gravada, o quadro encerrado no atelier para sempre. É preciso que o corpo de balé "aconteça" diante da plateia, que a ópera ganhe a estreia, os livros pelo menos a edição de lançamento e o roteiro o tão difícil financiamento para produção e distribuição.
É como a experiência por mim vivida a partir da doação do acervo de Manoel Maria de Vasconcellos à UERJ. No meio de toda aquela papelada havia dois originais: uma tese de livre docência que, apesar de aprovada com conceito "A", a PUC-Rio não editou e o manuscrito - inédito - de uma verdadeira teoria do comportamento do consumidor. Graças aos céus pude ser um elo na cadeia que levou esses textos da morte anunciada ao conhecimento público - ainda que singelo - pelas mãos da Conceito Editorial, a qual aceitou investir no incerto e dispendioso mercado editorial brasileiro. O primeiro livro, "Marketing Básico", lançado em 2006, teve sua edição esgotada - o que augura uma segunda para este ano. O outro, manuscrito em fase de editoração e revisão técnica, pré-intitulado pelo autor "Por que se compra", deve ganhar a luz em 2010. Vida longa aos - raros - empreendedores brasileiros da arte e da cultura!
Não me canso de citar também a recusa recorrente à minha proposta de levar disciplinas de produção às escolas de formação de artistas. Instituições como USP, UNICAMP, UNESP, UFRJ e UERJ esmeram-se em formar artistas mas nenhum perfil que se interesse em saber como o trabalho de atores ou músicos pode ser desenvolvido, não só como carreiras individuais mas também como proposta estética e produtiva de uma escola, institucionalmente. Vivi a experiência de ver a Orquestra de Música Brasileira (da qual tive a honra de co-participar em produção de espetáculos e gravação de disco) sucumbir sem qualquer apoio profissional ou profissionalizante da universidade que a viu nascer.
Outra história ou o senhor é o "famoso" quem?
Em São Paulo, ano 2000, por cortesia de um amigo jornalista e assessor de imprensa de importantes organizações, utilizei seu escritório contatando três dezenas de editoras a oferecer o manuscrito de minha tese de doutoramento desenvolvida na USP e versando, justamente, sobre marketing cultural. As respostas das editoras não poderiam ser mais iguais que as de uma secretária eletrônica onipresente: - o senhor é o famoso quem? Para em seguida emendar cortantes: - o senhor envia o seu original e nós temos seis meses para dizer se vamos ou não publicar. Nada mais burro, em minha opinião. Eles podiam estar diante de um mega seller! Piada. Mas hoje estou com o livro editado já há sete anos em uma casa editorial que prepara a terceira edição do livro proveniente da tese: "Marketing Cultural: das práticas à teoria".
Quantos livros maravilhosos deixaremos de ler porque sequer serão avaliados por uma editora? Quantos roteiros verdadeiramente originais (adaptados ou não de livros) jamais assistiremos na sala escura ou mesmo em vídeo porque sequer foram objeto de análise de algum estúdio? Quantas músicas de genuína qualidade deixaremos de ouvir porque nunca serão gravadas? E quantas peças jamais ganharão a cena? Lemos muito, ouvimos bastante música, vamos com frequência ao cinema, mas é inegável pensar que o que podemos fruir, mesmo em uma longa vida, é pequeníssima parcela do que o espírito humano já criou e ainda pode criar. Dessa angústia do não lido, do não visto, do não fruído, com alguma ironia, costumo dizer ser, este sim, caso que poderia dar "num verdadeiro suicídio alemão".
* O autor concebeu e coordena, na UERJ, os cursos "Marketing do Livro" (reciclagem em 30 horas), "Gestão e Marketing na Cultura" (aperfeiçoamento em 180 horas) e "Marketing Cultural: Teoria e Prática" (atualização em 75 horas), este último criado em 1994.
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sábado, 28 de fevereiro de 2009
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
"CONVERGÊNCIAS ENTRE COMUNICAÇÃO E ADMINISTRAÇÃO": Lançamento no Rio de Janeiro em 3 de dezembro de 2008
O evento contou com um "pocket papo" entre o autor e a jornalista Terezinha Santos, também consultora e professora de Comunicação Social, o qual versou sobre diversos temas abordados no livro, tais como a integração necessária entre comunicação e administração, assessoria de imprensa, produção cultural, ensino de comunicação e a onipresença do marketing, entre outros.
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
TV é eletrodoméstico. O resto é selva.
Viagem de ônibus para São Paulo. Ônibus "executivo". Ar condicionado. Jornal O Globo... e aparelhos de TV pendurados no teto. A tela está preta e eu, secretamente, torço para que assim permaneça.
Eis que de repente - não! - os equipamentos saem do silêncio. Estou na primeira fila, ou seja, não vejo a tela da TV que pende sob a cabeça de meu companheiro de viagem, à esquerda. Insisto em olhar para a "paisagem" da avenida Brasil.
Começa o filme. A temática: adultério. O horário de início da viagem: 14 horas. Crianças a bordo estão vidradas na telinha. A telinha que eu não vejo. Só ouço. Discussões intermináveis entre traídos e traidores. É insuportável só ouvir a um filme. Dublado.
A tortura segue por uma hora e meia quando, de repente, algo acontece com o DVD-player do ônibus e o filme "sai do ar". Para nunca mais voltar. Ufa! E pelo comentário entreouvido, parece que isto acontece muito. Ou seja, mesmo quem quer, não consegue assistir ao filme até o final.
Pano rápido.
Vou a um consultório de radiologia. Há adultos, jovens e crianças na sala de espera. E lá está ela, a televisão. Pendendo no "giro-visão". Invariavelmente ligada e sintonizada no "vale a pena ver de novo". Pergunto-me: vale? Som altíssimo. Ninguém reclama. E não é que estamos todos - pacientes - "quase em família" assistindo a uma produção apropriada a maiores de 16 anos no horário dos dez aninhos? Intimidades explícitas. A senhora, na extremidade do sofá que ocupo, sorri amarelo. Um camarada começa a fazer comentários sobre os dotes físicos que aquela tal atriz "já teve um dia"... - os anos passam para todo mundo, não é?! E fita a atendente com cara de poucos amigos.
Corte para uma última cena.
Jantar no descoladinho bar de Ipanema. Além de couvert e caipirinha, com o que nos recebem? TV Globo, ora. Afinal é horário da telenovela favorita da moçada. Pergunto ao maître por que, meu Deus, instalaram naqueles três cantinhos simpáticos uns LCDs enormes?
- É o ibope, doutor... O pessoal pediu e o dono atendeu. Todos os bares e restaurantes têm que ter TV hoje em dia. Tanto que a Net já criou até um "precinho" especial para casas noturnas...
Agora, a esta altura da madrugada, o que aparece nos telões é um jogo do campeonato espanhol. Sem som. Tenho a impressão de que ninguém está vendo aquilo. Mas a partida continua... "sem intervalos". Só os "da casa": - SPORTV, o canal campeão! - Canais Globosat! - O mundo é dos Nets! - Só este mês... "degustação" de todos os canais... de graça!
Não sei não... estou pensando em criar um movimento pelo retorno da TV ao status de eletrodoméstico. Daquele tipo que se tem em casa e que se usufrui no aconchego do lar, sozinho ou acompanhado, mas sem o constrangimento de assistir em público, ao lado de estranhos, às mais recentes "obras" dos dissolutos autores e diretores da nossa televisão - e ainda tentar achar tudo isso muito normal.
Eis que de repente - não! - os equipamentos saem do silêncio. Estou na primeira fila, ou seja, não vejo a tela da TV que pende sob a cabeça de meu companheiro de viagem, à esquerda. Insisto em olhar para a "paisagem" da avenida Brasil.
Começa o filme. A temática: adultério. O horário de início da viagem: 14 horas. Crianças a bordo estão vidradas na telinha. A telinha que eu não vejo. Só ouço. Discussões intermináveis entre traídos e traidores. É insuportável só ouvir a um filme. Dublado.
A tortura segue por uma hora e meia quando, de repente, algo acontece com o DVD-player do ônibus e o filme "sai do ar". Para nunca mais voltar. Ufa! E pelo comentário entreouvido, parece que isto acontece muito. Ou seja, mesmo quem quer, não consegue assistir ao filme até o final.
Pano rápido.
Vou a um consultório de radiologia. Há adultos, jovens e crianças na sala de espera. E lá está ela, a televisão. Pendendo no "giro-visão". Invariavelmente ligada e sintonizada no "vale a pena ver de novo". Pergunto-me: vale? Som altíssimo. Ninguém reclama. E não é que estamos todos - pacientes - "quase em família" assistindo a uma produção apropriada a maiores de 16 anos no horário dos dez aninhos? Intimidades explícitas. A senhora, na extremidade do sofá que ocupo, sorri amarelo. Um camarada começa a fazer comentários sobre os dotes físicos que aquela tal atriz "já teve um dia"... - os anos passam para todo mundo, não é?! E fita a atendente com cara de poucos amigos.
Corte para uma última cena.
Jantar no descoladinho bar de Ipanema. Além de couvert e caipirinha, com o que nos recebem? TV Globo, ora. Afinal é horário da telenovela favorita da moçada. Pergunto ao maître por que, meu Deus, instalaram naqueles três cantinhos simpáticos uns LCDs enormes?
- É o ibope, doutor... O pessoal pediu e o dono atendeu. Todos os bares e restaurantes têm que ter TV hoje em dia. Tanto que a Net já criou até um "precinho" especial para casas noturnas...
Agora, a esta altura da madrugada, o que aparece nos telões é um jogo do campeonato espanhol. Sem som. Tenho a impressão de que ninguém está vendo aquilo. Mas a partida continua... "sem intervalos". Só os "da casa": - SPORTV, o canal campeão! - Canais Globosat! - O mundo é dos Nets! - Só este mês... "degustação" de todos os canais... de graça!
Não sei não... estou pensando em criar um movimento pelo retorno da TV ao status de eletrodoméstico. Daquele tipo que se tem em casa e que se usufrui no aconchego do lar, sozinho ou acompanhado, mas sem o constrangimento de assistir em público, ao lado de estranhos, às mais recentes "obras" dos dissolutos autores e diretores da nossa televisão - e ainda tentar achar tudo isso muito normal.
sábado, 25 de outubro de 2008
E a farsa montada no palco do cebolão ainda está longe de acabar
Véspera de segundo turno da eleição municipal. Fim de semana. Feriado. Dia do servidor público - o que, aliás, será que se festeja num feriado como esse?
Fim de mandato. Fim de feira. Fim de uma farsa em quatro atos, digo, quatro anos. E o elefante cinzento construído no cebolão da avenida Airton Senna esquina com a avenida das Américas diz a que veio: um absurdo viário-empreiteiro-demagógico-pseudocultural.
E nós, contribuintes e moradores da mui heróica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro preparemo-nos para bancar não só os 600 milhões de reais que já foram gastos, mas os muitos milhões mais que ainda pendurarão nas costas do município que, convenhamos, não está propriamente carente de espaços culturais.
Quosque tandem, César Maia, abutere patientia nostra?
Em texto de 2006, publicado no livro "Políticas Públicas de Cultura" editado pela FAPERJ, este escriba já apontara o descalabro da idéia.
E para coroar o absurdo, aparece o tresloucado alcaide comparando-se a Péricles (aquele do dourado e grego século V a. C.), ou a comparar seu Titanic particular com o Panthéon...
Vai-te tarde, César. Mas triste é saber que deixa-nos teu herdeiro legítimo, eleito por uma diferença de pouco mais de 55 moedas de prata.
Fim de mandato. Fim de feira. Fim de uma farsa em quatro atos, digo, quatro anos. E o elefante cinzento construído no cebolão da avenida Airton Senna esquina com a avenida das Américas diz a que veio: um absurdo viário-empreiteiro-demagógico-pseudocultural.
E nós, contribuintes e moradores da mui heróica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro preparemo-nos para bancar não só os 600 milhões de reais que já foram gastos, mas os muitos milhões mais que ainda pendurarão nas costas do município que, convenhamos, não está propriamente carente de espaços culturais.
Quosque tandem, César Maia, abutere patientia nostra?
Em texto de 2006, publicado no livro "Políticas Públicas de Cultura" editado pela FAPERJ, este escriba já apontara o descalabro da idéia.
E para coroar o absurdo, aparece o tresloucado alcaide comparando-se a Péricles (aquele do dourado e grego século V a. C.), ou a comparar seu Titanic particular com o Panthéon...
Vai-te tarde, César. Mas triste é saber que deixa-nos teu herdeiro legítimo, eleito por uma diferença de pouco mais de 55 moedas de prata.
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Descoberta a pólvora!
Leio na manchete de primeira página do jornal O Globo que "empresas têm ganhos em excesso com especulação. 80 grandes companhias obtêm mais da metade do lucro em operações financeiras". Quanta novidade! Pergunto-me se a manchete é admirada para corroborar a cobertura da crise atual ou se é pela sua "novidade".
Notícias - que em inglês diz-se news - devem informar o leitor. Colocá-lo a par do que de novo acontece.
A teoria de informação ensina que quanto mais previsível um dado, menos informação ele carrega. Ou seja, a medida da informação é proporcional ao quantum de inaudito que o dado traz. E, convenhamos, as empresas passarem a preocupar-se tanto ou mais com a rentabilização de seu caixa do que com suas operações é, há muito tempo, do conhecimento - parafraseando Mino Carta - até do mundo mineral.
Um museu de grandes novidades
Na século passado era piada corrente que a General Motors seria um banco que, por "teimosia" continuava produzindo carros. Financiamentos a "taxa zero" de juros refletiam o poder dos bancos da indústria automobilística. O ganho para além dos custos e margens estaria embutido nos preços finais financiáveis. Vale mais a pena ter dinheiro para alavancar que produzir mais carros e vendê-los mais barato. Tais bancos de montadoras são, agora, candidatíssimos ao pacote bilionário de ajuda federal estadunidense.
Será que não é chegada a hora de rever o capitalismo?
Essa pergunta, antes insólita, vem ocupando as páginas, não dos tablóides dos partidos comunistas all over the world mas dos diários mais cotados do mercado, tais como "Financial Times" e "The Wall Street Journal".
Em algum momento do século XX, entre Bretton Woods - o tratado do pós-guerra que ordenou a finança internacional - e a exuberância irracional alcunhada por Alan Greenspan, o capitalismo enlouqueceu. Perdeu-se o referencial da economia real. Passamos de um capitalismo de negócios para um capitalismo financeiro quase sem perceber. Bem, sem percebermos nós, humildes mortais. Agências de classificação de risco, FMI, Banco Mundial e que tais, já há muito sabiam da super-bolha que agora vem explodindo na cara de todo o mundo.
Fornido na Basiléia, o último acordo inter-bancário preconiza uma alavancagem (o quanto um banco obtém de recursos com base em seu patrimônio líquido) "saudável" de até oito vezes (isto mesmo; 8 vezes). Trocando em miúdos: se um banco recebe de mim a quantia de um milhão para aplicar por um ano, pode empenhá-lo, neste período, valendo-se de operações complexas de securitização e mercado futuro, oito vezes.
É claro que a administração fiduciária do banco planeja prazos de entrada e saída de recursos de milhares de clientes, bem como uma gestão de carteiras de investimentos e alta taxa de spread (a diferença entre as taxas que o banco cobra de quem toma emprestado e paga a quem poupa) que permitem a ele uma liquidez e uma solvência ao longo do tempo - isso, óbvio, se toda a cadeia de compromissos (hipotecas, empréstimos, garantias de arrendamentos mercantis além de financiamentos diversos) for honrada.
O que acontece se não for? O que ocorre se resolvo resgatar meu milhãozinho antes do prazo, na boca do caixa, mesmo sendo-me imputada uma perda pela antecipação? Quebradeira geral. E é exatamente isto o que está acontecendo agora. E que aconteceu em 1929 - só que com uma "gigantesca" diferença. Agora os Estados estão socorrendo os bancos. E por que? Por que os Estados nacionais beneficiaram-se indiretamente da ciranda financeira e agora, para não cair em desgraça, estão colocando recursos - os nossos, pois que oriundos de impostos - na roda da "infortuna" que não para de cobrar o pedágio do efeito manada tão característico das bolsas-cassino em que se transformaram os mercados depois que apareceu o tal do "mercado futuro" (não aquele antigo, das commodities), mas aquele das apostas cambiais e dos debêntures a perder de vista...
Uma última "informação". Novidade mesmo: o Lehman Brothers, um dos poucos que faliram de verdade (porque a maioria está pendurada nos PROER da vida), ultrapassou em muito o tal limite razoável de alavancagem. Multiplicou-o por quatro. Chegou a apostar 32 vezes contra uma de patrimônio real, daqueles que se pode pegar com a mão. Aceita-se palpites quanto à profundidade do poço ou quando os mercados pararão de exigir o pobre dinheirinho dos contribuintes.
Notícias - que em inglês diz-se news - devem informar o leitor. Colocá-lo a par do que de novo acontece.
A teoria de informação ensina que quanto mais previsível um dado, menos informação ele carrega. Ou seja, a medida da informação é proporcional ao quantum de inaudito que o dado traz. E, convenhamos, as empresas passarem a preocupar-se tanto ou mais com a rentabilização de seu caixa do que com suas operações é, há muito tempo, do conhecimento - parafraseando Mino Carta - até do mundo mineral.
Um museu de grandes novidades
Na século passado era piada corrente que a General Motors seria um banco que, por "teimosia" continuava produzindo carros. Financiamentos a "taxa zero" de juros refletiam o poder dos bancos da indústria automobilística. O ganho para além dos custos e margens estaria embutido nos preços finais financiáveis. Vale mais a pena ter dinheiro para alavancar que produzir mais carros e vendê-los mais barato. Tais bancos de montadoras são, agora, candidatíssimos ao pacote bilionário de ajuda federal estadunidense.
Será que não é chegada a hora de rever o capitalismo?
Essa pergunta, antes insólita, vem ocupando as páginas, não dos tablóides dos partidos comunistas all over the world mas dos diários mais cotados do mercado, tais como "Financial Times" e "The Wall Street Journal".
Em algum momento do século XX, entre Bretton Woods - o tratado do pós-guerra que ordenou a finança internacional - e a exuberância irracional alcunhada por Alan Greenspan, o capitalismo enlouqueceu. Perdeu-se o referencial da economia real. Passamos de um capitalismo de negócios para um capitalismo financeiro quase sem perceber. Bem, sem percebermos nós, humildes mortais. Agências de classificação de risco, FMI, Banco Mundial e que tais, já há muito sabiam da super-bolha que agora vem explodindo na cara de todo o mundo.
Fornido na Basiléia, o último acordo inter-bancário preconiza uma alavancagem (o quanto um banco obtém de recursos com base em seu patrimônio líquido) "saudável" de até oito vezes (isto mesmo; 8 vezes). Trocando em miúdos: se um banco recebe de mim a quantia de um milhão para aplicar por um ano, pode empenhá-lo, neste período, valendo-se de operações complexas de securitização e mercado futuro, oito vezes.
É claro que a administração fiduciária do banco planeja prazos de entrada e saída de recursos de milhares de clientes, bem como uma gestão de carteiras de investimentos e alta taxa de spread (a diferença entre as taxas que o banco cobra de quem toma emprestado e paga a quem poupa) que permitem a ele uma liquidez e uma solvência ao longo do tempo - isso, óbvio, se toda a cadeia de compromissos (hipotecas, empréstimos, garantias de arrendamentos mercantis além de financiamentos diversos) for honrada.
O que acontece se não for? O que ocorre se resolvo resgatar meu milhãozinho antes do prazo, na boca do caixa, mesmo sendo-me imputada uma perda pela antecipação? Quebradeira geral. E é exatamente isto o que está acontecendo agora. E que aconteceu em 1929 - só que com uma "gigantesca" diferença. Agora os Estados estão socorrendo os bancos. E por que? Por que os Estados nacionais beneficiaram-se indiretamente da ciranda financeira e agora, para não cair em desgraça, estão colocando recursos - os nossos, pois que oriundos de impostos - na roda da "infortuna" que não para de cobrar o pedágio do efeito manada tão característico das bolsas-cassino em que se transformaram os mercados depois que apareceu o tal do "mercado futuro" (não aquele antigo, das commodities), mas aquele das apostas cambiais e dos debêntures a perder de vista...
Uma última "informação". Novidade mesmo: o Lehman Brothers, um dos poucos que faliram de verdade (porque a maioria está pendurada nos PROER da vida), ultrapassou em muito o tal limite razoável de alavancagem. Multiplicou-o por quatro. Chegou a apostar 32 vezes contra uma de patrimônio real, daqueles que se pode pegar com a mão. Aceita-se palpites quanto à profundidade do poço ou quando os mercados pararão de exigir o pobre dinheirinho dos contribuintes.
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Arqui-té tu Brutus?
Não é de hoje que engenheiros extrapolam as suas habilidades e competências partindo para cima de áreas distantes da sua esfera de formação e atuação regulamentada. Escrevi sobre isso em meu último livro, quando trouxe à baila uma jocosa - mas real! - discussão que presenciei acerca de qual seria a profissão de Deus antes da criação. Os engenheiros têm certeza que Ele era, já, um deles. A falta do número do CREA no projeto deve-se a uma falha burocrática de jurisdição - não havia quem abonasse a ficha do Altíssimo.
Primeiro foi a Engenharia de Produção, outro produto do raciocínio criacionista aí de cima. Se algo é produzido, deve-se a um fato do engenho. E desabilite-se as profissões em contrário. Administradores sabem bem a que me refiro.
Esqueçam as velhas Biologia e Botânica - substituíram-nas pela Engenharia Genética e Florestal. Enterrem a Nutrição. Já raiou a Engenharia de Alimentos.
Até a produção artístico-cultural já deixou de existir depois que en-gênio-eiros inventaram a Engenharia Cultural, com matriz... na França!
No Brasil a novidade vem de uma outra sala do mesmo CREA - mais precisamente do gabinete dos arquitetos - uma tal de arquitetura cultural. Haja criatividade!
Se Zanine ou Niemeyer fizeram parte da banca que aprovou esta tese, prometo, adotarei o conceito
A questão do desenvolvimento de legítimas ações culturais - seja como ferramental de comunicação integrada de empresa ou não - ainda é instigante e merece muito mais atenção do quem tido na academia. Prevalecem as visões de mercado, emitidas por eminentes consultores - até bastante criativos, cheios de atitude (e de patrocinadores, também), mas, irremediavelmente presos às suas próprias práticas, seus próprios umbigos conectados à artéria-mór que é a Avenida Paulista.
Oxalá, do Pará ao Paraná, do Acre às Alagoas, surjam outros arquitetos, outros engenheiros e outros estudiosos de cultura, de marketing, de museologia, de artes e de comunicação, interessados em entender e encomendar o encontro da produção artístico-cultural com o mercado (sim, o mercado; de trabalho, de emprego, de estudo, de pesquisa, de fruição artística, de leitores, de cinéfilos, enfim, de públicos), algo que, inevitavelmente remete-nos à disciplina "marketing cultural", gostemos ou não do termo anglo-saxão.
Se há uma Economia da Cultura e se há um mercado cultural, há que nele realizar-se, competentemente, um marketing cultural. E não só pelas empresas patrocinadoras (essas mais interessadas em si mesmas e na promoção de suas marcas), mas, principalmente, pelos artistas, criadores, grupos e gestores culturais.
Saudações mercadológicas!
(Publicado parcialmente no Overmundo - 14/10/2008 - em comentário à matéria/texto acadêmico postado por Vanessa Gabriel).
Primeiro foi a Engenharia de Produção, outro produto do raciocínio criacionista aí de cima. Se algo é produzido, deve-se a um fato do engenho. E desabilite-se as profissões em contrário. Administradores sabem bem a que me refiro.
Esqueçam as velhas Biologia e Botânica - substituíram-nas pela Engenharia Genética e Florestal. Enterrem a Nutrição. Já raiou a Engenharia de Alimentos.
Até a produção artístico-cultural já deixou de existir depois que en-gênio-eiros inventaram a Engenharia Cultural, com matriz... na França!
No Brasil a novidade vem de uma outra sala do mesmo CREA - mais precisamente do gabinete dos arquitetos - uma tal de arquitetura cultural. Haja criatividade!
Se Zanine ou Niemeyer fizeram parte da banca que aprovou esta tese, prometo, adotarei o conceito
A questão do desenvolvimento de legítimas ações culturais - seja como ferramental de comunicação integrada de empresa ou não - ainda é instigante e merece muito mais atenção do quem tido na academia. Prevalecem as visões de mercado, emitidas por eminentes consultores - até bastante criativos, cheios de atitude (e de patrocinadores, também), mas, irremediavelmente presos às suas próprias práticas, seus próprios umbigos conectados à artéria-mór que é a Avenida Paulista.
Oxalá, do Pará ao Paraná, do Acre às Alagoas, surjam outros arquitetos, outros engenheiros e outros estudiosos de cultura, de marketing, de museologia, de artes e de comunicação, interessados em entender e encomendar o encontro da produção artístico-cultural com o mercado (sim, o mercado; de trabalho, de emprego, de estudo, de pesquisa, de fruição artística, de leitores, de cinéfilos, enfim, de públicos), algo que, inevitavelmente remete-nos à disciplina "marketing cultural", gostemos ou não do termo anglo-saxão.
Se há uma Economia da Cultura e se há um mercado cultural, há que nele realizar-se, competentemente, um marketing cultural. E não só pelas empresas patrocinadoras (essas mais interessadas em si mesmas e na promoção de suas marcas), mas, principalmente, pelos artistas, criadores, grupos e gestores culturais.
Saudações mercadológicas!
(Publicado parcialmente no Overmundo - 14/10/2008 - em comentário à matéria/texto acadêmico postado por Vanessa Gabriel).
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