sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Mensagem para a virada 2010/2011.

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Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez,

Com outro número e outra vontade de acreditar que daqui p'ra diante vai ser diferente.

Carlos Drummond de Andrade
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segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Última - culta e feia - pá de cal no ensino do jornalismo (nativo).

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Se há unanimidades com as quais tenho me deparado nos últimos 25 anos de atuação na esfera da Comunicação Social - seja como profissional, docente ou pesquisador - estas são: a cantada "isenção" e a decantada "independência" das redações em relação aos departamentos comerciais nas empresas jornalísticas.

Embora seja cada vez mais nítida a influência dos "negócios" sobre o noticiário, principalmente em relação ao que NÃO é publicado, os coleguinhas jornalistas insistem num ar blasé quando dividem corredores com publicitários e relações-públicas, tanto na academia quanto nas empresas.

Há vinte anos, Ben Bagdikian já nos alertava quanto ao monopólio da mídia, título, aliás, de seu livro. Na mesma época a BBC produziu o documentário "Beyond Citizen Kane", relatando o quanto o poder das 99 "organizações" de Roberto Marinho (o grupo Silvio Santos tem 44 empresas) "cartelizava" o respeitável público: à moda fordista, "você pode assistir a qualquer tipo de programa, desde que seja na Globo ou em qualquer outro canal Globosat", ou "você pode escolher qualquer jornal, desde que seja O Globo ou Extra ou Diário de São Paulo ou Valor Econômico", e, ainda "você pode ouvir qualquer rádio, desde que seja CBN, Rádio Globo ou Beat 98" etc. etc. etc. Juntando à massa, ainda, Globo.com, Som Livre, Época, Editora Globo e Globo Filmes, sobra, de fato, pouquíssimo espaço do nosso dia para chegar à janela e respirar, digamos, um ar menos "globalizado".

Cai o muro

E então, a inefável ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), lança seu curso de Jornalismo. Cairá, pois, a divisória entre a redação e o departamento comercial, uma vez que o programa do curso inclui eixos "pérolas" como "comunicação com o mercado" e "comunicação empresarial".

E, também, por que não? Lança-se, também, junto e misturado, um curso de pós-graduação, "totalmente voltado às necessidades do mercado".

Os experientes botões do paletó de Mino Carta decerto quedarão pasmos diante do "corpo docente", composto de "medalhões", entre patrões e bosses de redação que, claro, conhecem muito de negócios.

A revista da ESPM pergunta em sua capa:

- Para onde vai o jornalismo ?

Arrisco um palpite:

- Com esse tipo de proposta... vai direto para a caixa registradora dos anunciantes.
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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Reputação é a bola da vez. Na gestão e em tudo o mais.

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Matéria muito interessante publicada hoje, no jornal O Globo, dá conta de que vivemos numa sociedade digital. Digital mesmo, na qual "falamos pelos dedos" - nas palavras de Thomas Pettitt, professor de História da Cultura na Universidade do Sul da Dinamarca.

Para ele, que toma emprestada a expressão "Teoria do Parêntese de Gutenberg" do colega Lars Ole Sauerberg, estamos saindo de uma revolução de mais ou menos uma década, na qual a imprensa e os livros estão saindo de cena, dando lugar a um mundo pré-Gutenberg, de tradição oral e comunicação falada. Digitamos rápido como falamos. Editamos rápido como pensamos.

Essa teoria, de fato, explica algumas coisas; além da "analfabeta" e verborrágica internet; o fortalecimento do meio rádio e das relações públicas - uma vez que, em tempos de comunicação falada, a credibilidade da "fonte", ou seja, a reputação do falante, passa a ser "chave" -, termo usado pelo próprio Pettitt.
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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Depois de vinte dias de férias... poema concreto.

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Um admirável panorama "novo" nas manchetes. Em sete linhas:

Presidenta.

Cristina s/ Kirchner.

Piñera fazendo besteira.

Quer Evo saída para o Pacífico.

Obama sucumbindo ao Tea Party.

PMDB pressiona p/ cargos e influência.

Como indagaria Caetano: quem lê tanta notícia?

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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Serra, os gatos, as rações, Dilma e a mídia.

Em seu texto publicado hoje, à página 6 do jornal O Globo, Demétrio Magnoli presta inestimável serviço à inteligência. Algo raro na mídia. Mas - como diria Caetano - quem lê tanta notícia?

Poucas vezes concordo com as teses de Magnoli, principalmente quando no Painel, do William Waack, mas dessa vez...

Trata-se de uma crítica contundente à metodologia utilizada pelos institutos de pesquisa de opinião por ocasião das campanhas eleitorais. Na verdade, ele desvenda o erro metodológico da amostragem por quotas, algo engessado e que induz a erro... será que Ibope, Vox Populi e Datafolha estão querendo induzir alguém?

Intermezzo

Haveria que introduzir-se a amostragem probabilística nas pesquisas eleitorais. Essa metodologia produziria amostras aleatórias, muito mais afeitas ao universo pesquisado, mas cujo levantamento é bem mais caro.

Então ficamos assim; com o método barato. Barato e ruim. Mas quem se importa?

Isto remete-me a outra questão que é também problema de estatística básica: a eficácia da mídia - e, portanto, a pertinência de seu custo.

Segredo de polichinelo

No Brasil, pagamos o preço da mais cara mídia do mundo, em dólar. Aliás pagamos também a mais cara banda larga (larga?) e o maior custo por minuto nas ligações de telefonia celular. Sempre em dólar.

Ganhamos o maior salário em dólar? Temos uma boa banda larga? Temos uma mídia de qualidade? Respostas com Mister M...

A explicação - para o caso da mídia - é um axioma. Vende-se 30 segundos no intervalo do Jornal Nacional por 200 mil dólares simplesmente porque o Ibope afiança que o comercial será visto por aproximadamente 60% do share da faixa (?!) E que isto significa vendas de 1 milhão de sabonetes no dia seguinte, 200 mil sacos de ração para gatos ainda durante o programa + 20 mil automóveis no feirão do fim de semana.

Êita estatística tosca! Não é impunemente que o Brasil apresenta os piores índices de aproveitamento na aprendizagem da matemática. E viva as Casas Bahia, que só precisam oferecer uma prestação que caiba no bolso. O resto é p'ra Meirelles...

Pano rápido.
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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Opinião pública não! Opinião de quem publica! (apud Artur da Távola).

A edição do jornal O Globo de hoje abre uma janela sobre a discussão - inexorável - do tal de "controle social da mídia". E o ataca, claro.

Ironiza a viagem do ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social, Franklin Martins, a países que têm estruturas - conselhos ou agências reguladoras - que exercem essa função em nome (e por delegação) popular. Como bem diz o ministro: "Se sair da ideologia, todo o resto fica mais fácil. Temos um primeiro nó a desatar: as pessoas entenderem que regulação faz bem para todo mundo. Faz bem para as telecomunicações porque vai dar segurança jurídica. Faz bem para a radiodifusão porque fornece parâmetros para ela se mexer e coloca alguns limites à ação dos outros que são mais fortes que ela. E faz bem a sociedade".

Ministério das Comunicações - poderoso (e sempre com o PMDB no comando) -, cuida de satélites, antenas, tomadas e... concessões (quase sempre nas mãos de políticos)

No que toca à sociedade, o ministro refere-se ao ganho que pode advir em termos de qualidade e respeito à diversidade: "No Brasil. a Anatel faz um belo trabalho, mas cuida apenas do espectro [da radioteledifusão], enquanto que, na Europa, é comum ter agências que cuidam do conteúdo. Não como censura, mas para dizer que há de se ter produção regional e independente, regras de equilíbrio", afirma Franklin Martins.

No Canadá e na Alemanha, a televisão submete-se a conselhos com mais de cem membros escolhidos no seio da sociedade civil, representando todos os segmentos que, na iminência de ser atingidos, podem propor veto a determinado programa. Um lixo como Zorra Total, por exemplo, com conteúdo homofóbico e de desrespeito à mulher, seria um sério candidato a sair do ar. E que tal a exibição, iniciada segunda-feira última, 4 de outubro, no Canal Viva, de uma telenovela "das oito" (Vale Tudo) no horário das doze horas? Cadê a classificação indicativa de faixa etária?

Nos países civilizados, poderoso é o ministério que trata de conteúdos, mas o MinC brasileiro partido nenhum quer (aliás, o PV aceitou e, com Gil, até avançou)

No que toca "aos mais fortes", o que o ministro quer dizer é que as empresas de telefonia - agora ávidas por produzir TV - são de longe mais poderosas que a indústria da radioteledifusão. No ano passado, no Brasil, as teles ganharam 13 vezes mais que o setor de mídia.

Uma reorganização seria do interesse das empresas: "Hoje em dia, você tem uma coisa chamada convergência de mídia. Nosso marco regulatório é de 1962. As empresas de radiodifusão no Brasil faturaram, em 2009, R$ 13 bilhões, enquanto as de telefonia faturaram R$ 180 bilhões. Sem regulação que estimule a competição, as empresas serão atropeladas por uma jamanta", completa o ministro.

Que os senhores da mídia - as famiglias - ponham suas barbas de molho; com Dilma ou com Serra, o controle dos big brothers no Brasil (e não mais a influência nefasta da audiência pelos BBBs da vida) finalmente virá. Para elevação do nível cultural da nação.
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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Trivial variado... e ruim!

A leitura do jornal, hoje, deixou-me enjoado. Trocando uma letra de lugar, a palavra poderia ser outra - enojado. E ainda assim correponderia ao meu estado.

Vamos aos fatos (ou melhor dizendo, às versões):

Começo pelo editorial OPINIÃO "Caso Erenice tem de ser passado a limpo", que toca numa escolha que representaria anos de avanço (ou atraso) no trato do interesse público em nosso país:

Fixo-me numa só palavra, encontrada (ou perdida) na seguinte frase: "A empresa, relatou Quícoli, não aceitou a pedida de Israel, e o lobby se frustrou".

Editado e impresso assim, não em caracteres itálicos, o termo anglófono lobby parece até algo muito natural, conhecido dos leitores. Não o é. E os poucos que compreendem a expressão associam a palavra a uma outra, saída do vocabulário "lulês": maracutaia (esta, até que fosse pronunciada por Lula, eu é que desconhecia).

Seria bom que homens e mulheres de boa vontade - sobretudo aqueles que querem o poder (qualquer um desses três poderes; executivo, legislativo e judiciário) - e também, principalmente, os representantes do quarto poder (a imprensa, ou a mídia, como queiram), em torno de suas associações (ABERT, ANJ, ABP), pressionassem pela regulamentação do lobbying - uma atividade que em países mais civilizados que o Brasil emprega gente séria há décadas.

"Décadas" também é a medida do tempo que uma emenda constitucional no sentido de legalizar a atividade e seus players, de autoria do parlamentar Marco Maciel, tramita no Congresso Nacional. (Os "lobistas" seriam conhecidos, teriam formal acesso aos lobbies dos palácios legislativos e executivos - daí o nome da coisa - e responderiam transparentemente à sociedade, mesmo porque acossados seriam pelos "lobistas" concorrentes).

E não há lobby que consiga fazê-la andar.

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Prossigo: agora o texto de Luiz Garcia (a quem conheci pessoalmente como convidado a evento acadêmico no Departamento de Comunicação da Universidade Gama Filho que, à época, eu dirigia).

Acabo de completar 35 anos de "carteira assinada" mas, com todo o respeito, é o Luiz Garcia que, acho, devia se aposentar. Seu texto "Rancor e Paranoia", n'O Globo de hoje, é de espantar até o mais renhido seguidor da ideologia "global", na sanha de "bater" em José Dirceu e no PT.

O próprio autor entrega que não devia tê-lo escrito: "Quase não vale a pena rebater, mas não custa lembrar que informar não é um poder, mas uma obrigação dos meios de comunicação. E que o direito de resposta é regulamentado em lei".

Lástima! Três impropriedades:

1) A "pérola" proferida por Dirceu ("a mídia abusa do direito de informar") nem merecia tamanha repercussão, mas o velho jornalista resolveu dar mais um pouco de espaço à besteira.

2) A regulamentação do direito de resposta desapareceu com a queda da Lei de Imprensa, "tornada sem efeitos em sua totalidade" pelo Supremo Tribunal Federal em 30 de abril de 2009, quando a considerou, por ter sido editada em 1967 - plena ditadura - inconstitucional.

3) Confunde meios com veículos. De propósito. Os meios são os jornais, as revistas, as emissoras de rádio e TV, a telefonia, a internet - algo geral e genérico, por definição. Veículos, esses sim, são específicos, têm nome e sobrenome. São empresas: O Globo, Época, Rádio Globo, TV Globo, Vírtua, Globo.com.

E mais!

Continua o velho homem de imprensa: "E é brincadeira falar em monopólio da informação - mesmo numa cidade com apenas um grande jornal, como acontece agora no Rio - quando, além da TV, do rádio e da imprensa, a circulação de informações pela internet expõe a opinião pública a uma massa de fatos e opiniões como nunca antes na história do planeta".

Chamem a geriatria! E tome mais três pílulas:

1) O próprio jornalista admite o - triste - monopólio "global", sobretudo no pobre Rio de Janeiro. E esquece que as mencionadas "opções" da TV (Globo e Globonews), do rádio (CBN, Rádio Globo, Beat 98) e da imprensa (Extra, Valor Econômico) também são "das organizações", seus patrões.

2) Como já ensinara Artur da Távola, "não existe opinião publica, mas opinião de quem publica". Afirmar a diversidade de opiniões baseado na cobertura, acesso e uso da internet é sinal de insanidade. A internet está em 20% dos lares brasileiros, enquanto a TV cobre 99%. E monopólio da informação não se baseia só na escandalosa "propriedade cruzada" (coisa proibida nos países civilizados; um mesmo grupo estar presente em mais de uma região geográfica e possuir veículos em mais de uma modalidade de meios de comunicação), mas na fatia das verbas que mantém a mídia, o tal "bolo" publicitário, do qual "as organizações" garfam 60%.

3) Se assim não é, se o editorialista acredita que a (sic) internet tem o mesmo poder que O Globo, proponho que passe já a escrevinhar em um blog com seu nome, fora de qualquer "grande jornal". E esperemos para comparar, depois, o tamanho da repercussão de suas ideias.
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